NEUROCIÊNCIA E FILOSOFIA DA MENTE

NEUROCIÊNCIA E FILOSOFIA DA MENTE

POR JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA

Em um de seus mais famosos contos, o Aleph, publicado em 1949, o escritor argentino Jorge Luís Borges narra uma situação bizarra. Ele nos relata a angústia de seu personagem, Carlos Daneri, ao saber que sua casa, em cujo porão havia um Aleph, seria demolida.

Mas, o que é um Aleph? O Alephé o mundo, um lugar onde estão todos os lugares do planeta, vistos de todos os ângulos. Ele tem apenas três centímetros de diâmetro, mas com ele seria possível ver tudo o que ocorre no universo.

Será que não poderíamos comparar o Alephcom o cérebro humano? Não é a partir do que ocorre no cérebro que se descortina todo o universo?

O cérebro é o órgão mais complexo do corpo humano. Temos tamanha quantidade de neurônios e de sinapses(conexões)em nosso cérebro que isso torna seu estudo quase impossível. Calcula-se, por exemplo, que o número de sinapses seja parecido com o número de partículas existentes no universo desde o Big-Bang. Cada neurônio, cujo número chega a cem bilhões tem,em média, 7.000 conexões sinápticas com outros.

A possibilidade de observar o cérebro vivo, em funcionamento, é algo recente na história da neurociência. Só nos anos 1990 que novas tecnologias de observação do cérebro surgiram. A mais famosa delas, a neuroimagem obtida pelo fMRI (a ressonância magnética funcional), levou a neurociência a uma revolução sem precedentes. As imagens obtidas pelo fMRI detectam a atividade neural através das variações metabólicas que ocorrem no cérebro.

O entusiasmo pelas teorias biológicas da consciência se acentuou após a invenção dessas novas tecnologias.A neurociência sugere que o problema mente-cérebro, do qual se ocuparam as filosofias e as religiões, logo será resolvido pela ciência. A mente é o cérebro.Esse é o mantra dos neurocientistas.

Para a neurociência, somos apenas uma imensa coleção de neurônios, que evoluiu ao longo de milhares de anos, e cuja atividade é, em última análise, regida por genes (proteínas) que, em sua interação com o meio ambiente, acabam tendo um papel decisivo na nossa mente e no nosso comportamento. O materialismo teria, finalmente, triunfado sobre as concepções do eu que o associam a uma alma imortal. A herança platônica quenos vê como uma alma aprisionada no corpo tende a acabar. Somos apenas nossos cérebros; e nossas diferenças individuais nada mais são do que pequenas diferenças cerebrais.

Um dos maiores filósofos da neurociência na atualidade, Carl F. Craver escreveu que se a neurociência explicar o mistério da consciência, a ilusão do livre-arbítrio e como funciona a memória humana, mudaremos nossa autoimagem tão radicalmente como Copérnico o fez ao nos tirar do centro do universo.

Mas, o mistério da consciência continua sendo uma pedra no meio do caminho.Poderá a neurociência explicar a consciência? Se a consciência estiver em algum lugar do cérebro, como faremos para encontrá-la? Como algo pode encontrar a si mesmo?Não sabemos até hoje se as neuroimagens são o resultado da atividade de um cérebro ou da atividade de uma mente que examina um cérebro.

Nos últimos anos, vários neurocientistas propuseram teorias da consciência. Nenhuma convenceu.Há uma pedra no meio do caminho.

Na próxima coluna examinarei porque alguns filósofos acreditam que o problema mente-cérebro e o problema da consciência não têm solução.

JOÃO DE FERNANDES TEIXEIRA é formado em filosofia pela USP. Viveu e estudou na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Lecionou na UNESP, na UFSCar e na PUC-SP. Publicou vários livros. Colunista da revista Filosofia Ciência & Vida.

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