Cinco décadas de José de Abreu

Completando 50 anos de carreira, ator estrela novela e filme e prepara lançamento de sua biografia, em agosto

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José de Abreu começou a carreira em 1968, no filme “Anuska, Manequim e Mulher”, com um personagem creditado apenas como “homem no bote”. De lá para cá, são 50 anos de uma carreira prolífica – bodas de ouro que ele não vai deixar passar em branco. “Estou terminando minha biografia. Escrevi 900 páginas, estamos diminuindo para umas 400 com a editora. Vai sair em agosto”, revela.

Mas a celebração não se resume a revisar o passado. O ator está em plena atividade, vivendo o patriarca Dodô Falcão na novela “Segundo Sol” e retornando ao cinema do início da carreira com “Antes que Eu Me Esqueça”, que estreia nesta quinta-feira (24). No filme, ele vive Polidoro, juiz octogenário e aposentado, que luta contra a chegada do Alzheimer e que, ao sofrer uma ação de interdição pela filha, decide investir seus fundos na boate de strip-tease ao lado de seu prédio.

“Tive um professor de teatro que me dizia que é muito difícil fazer louco, bêbado e velho. É uma linha muito tênue em que você precisa ter cuidado para arriscar até o limite, mas não pode passar do ponto, porque é muito fácil cair no ridículo”, explica o veterano. De fato, o roteiro da estreante Luísa Parnes caminha sobre uma corda muito bamba entre drama e comédia, numa mistura arriscada representada na própria trama: Polidoro tem um filho, Paulo (Danton Mello), pianista frustrado que começa a ensaiar na boate porque um juiz determina que ele passe tempo com o pai para avaliar seu estado mental, sob a supervisão de uma promotora. E em pouco tempo as strippers do local estão tirando a roupa ao som de Beethoven e Vivaldi.

É uma premissa insólita e difícil que o diretor mineiro Tiago Arakilian, em seu primeiro longa de ficção, nem sempre consegue tornar verossímil. José de Abreu, porém, tenta o tempo todo respeitar o tom irregular da produção, sem jamais fazer de seu Polidoro um “velho gagá”. “Quando você entra no personagem, não pensa se está fazendo graça ou drama. Você age como ele agiria”, explica.

O ator conta que Arakilian lhe indicou vários filmes sobre Alzheimer antes das filmagens, mas ele não viu nenhum. “Não queria ficar especializado na doença, queria saber o que o Polidoro sabe. E fiquei com medo de ficar com dó do personagem, preferi entender o Alzheimer como algo que faz ele mudar de vida”.

O curioso é que, mesmo com toda essa experiência e domínio nas costas, José de Abreu é um ator bissexto no cinema – com uma filmografia esparsa e rara nos últimos anos. “São poucos papéis para atores da minha idade. Não sou só eu: o Osmar Prado, o Nuno Leal Maia também não têm feito cinema”, analisa.

E o veterano admite também que, já há um bom tempo, desde os anos 2000, vem emendando uma novela e minissérie atrás da outra. Algo de que ele não reclama de jeito nenhum. “Segundo Sol” já é seu terceiro trabalho sob a batuta do teledramaturgo João Emanuel Carneiro – uma parceria que começou por acaso, a convite do diretor Ricardo Waddington para viver o Nilo de “Avenida Brasil”, que se tornaria um dos personagens mais marcantes de sua carreira.

“Ele me disse ‘deixa a barba e o cabelo crescer, que você vai morar num lixão’. E foi uma explosão. A primeira vez que um ator não protagonista ganhou o prêmio da crítica de São Paulo”, recorda. Na novela, ele ficou amigo da diretora Amora Mautner, que o convidou para “Joia Rara” e, depois, para “A Regra do Jogo”, novamente com Carneiro. “Ela me ofereceu dois papéis: do bandido pobre e do milionário. Tentaram me convencer até o fim a fazer o personagem do Tony Ramos, mas quis fazer o rico para me desvencilhar do Nilo”, conta.

A repercussão desses trabalhos já mostrou ao ator o peso de estar no centro dos holofotes: uma recente declaração sua gerou uma série de fake news afirmando que Dodô Falcão teria um caso com a neta. “Está no site da novela: ele tem compulsão por garotas mais novas. Quando eu disse, pegaram como se fosse novidade. Gostar de garotas jovens não quer dizer que ele seja pedófilo”, refuta. As polêmicas, porém, não assustam José de Abreu, acostumado a declarar sua posição e opiniões políticas nas redes sociais – e a lidar com os trolls que elas atraem. “A Globo respeita os contratados que chegam na hora, decoram o texto, não criam problemas. Eu sou um funcionário-modelo. Gravo tudo de primeira. Sou profissional, adoro o que faço. É o que dizem ‘ache um trabalho que você ama, e nunca mais vai trabalhar’. Ser ator é um privilégio enorme que a vida me deu”, pontifica.

Fonte:Jornal O Tempo

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